Coluna as reflexões de enrico

Aprender a ouvir

Emilly

18/08/2026

 O silêncio que a chácara ensina.



Aprender a ouvir

Às vezes, o silêncio que antes parecia estranho ou ameaçador só está
tentando nos ensinar que nem todo vazio precisa ser preenchido.

Teve uma manhã, faz pouco tempo, em que eu acordei antes do despertador e
fiquei parado na cama só escutando. Não tinha carro passando, não tinha buzina,
não tinha aquela trilha sonora urbana que a gente aprende a não ouvir mais de tanto
ouvir. Tinha vento nas árvores, um cachorro se espreguiçando lá fora, e depois
nada. Um nada tão completo que por um segundo eu estranhei, quase levantei pra
ver se tinha alguma coisa errada, porque silêncio desse tamanho, hoje em dia, soa
quase como defeito.
Eu passei anos treinando o ouvido pro contrário. Morei em lugar em que silêncio de
madrugada geralmente significava alguma coisa acontecendo, não a ausência de
coisa nenhuma. O corpo aprende essas associações sem pedir licença, e o meu
aprendeu que quieto é sinônimo de alerta. Cheguei na chácara carregando esse
reflexo, e nas primeiras semanas eu ligava a televisão só de fundo, ou colocava um
podcast que eu nem prestava atenção, só pra preencher um vazio que na verdade
não pedia preenchimento nenhum, pedia só companhia da minha própria presença.
Foi levando tempo, mais do que eu esperava, pra eu entender que aquele silêncio
não estava vazio, estava cheio de um jeito diferente do que eu conhecia. Cheio de
pássaro, de vento, de cachorro respirando, de uma paz que não precisa de legenda
pra ser boa. O problema nunca foi o silêncio em si, foi eu não saber ficar dentro dele
sem tentar decodificar alguma ameaça escondida ali.
Hoje eu ainda pego a televisão ligada às vezes, não vou fingir que virei monge, mas
aprendi a distinguir quando é companhia de verdade e quando é fuga disfarçada de
hábito. Tem manhã em que eu desligo tudo de propósito, só pra sentir esse silêncio
grande de novo, o mesmo que antes me deixava desconfiado. Hoje ele me deixa em
paz, e essa mudança, pequena e boba na aparência, foi uma das coisas mais
valiosas que a chácara me ensinou sem eu pedir aula.
Acho que a gente vive tão cercado de som que esquece que silêncio também é um
idioma, e que ele só assusta quem nunca teve tempo de aprender a falar nele. Eu
ainda estou aprendendo, devagar, nas manhãs que sobram. Mas já sei reconhecer
quando o silêncio está me dizendo alguma coisa boa, e isso, garanto, é bem
diferente de quando ele estava só me avisando de perigo.
@enricopierroofc

Insônia às duas da manhã.

Emilly

11/08/2026

 Noite acesa
 Acordar no meio da madrugada nem sempre é falta de sono. Às vezes, é a mente
tentando resolver, no silêncio da noite, tudo aquilo que foi adiado durante o dia.



Eu desenvolvi uma técnica infalível para dormir: contar cachorros. Ovelha nunca funcionou
para mim, acho que por falta de intimidade, nunca convivi com ovelha nenhuma. Então eu
conto os meus cachorros, um por um, imaginando cada um pulando uma cerquinha. O
problema é que são só quatro, a contagem acaba rápido, e aí a Pandora se recusa a pular
de novo, o Bartô fica preso na cerca, e quando eu percebo estou administrando um canil
imaginário às duas da manhã em vez de dormir. A técnica é infalível no sentido de que falha
sempre.
Porque a verdade é que insônia não é um problema de contagem. É um problema de
agenda. A minha cabeça descobriu que a madrugada é o único horário em que eu não
tenho reunião, não tenho texto para entregar, não tenho ninguém precisando de mim, e
decidiu marcar todos os assuntos pendentes para esse horário. Duas da manhã é o horário
comercial da minha angústia. Ela abre o escritório pontualmente e vem com a pauta pronta:
aquele problema de trabalho que eu vinha adiando, aquela conversa mal resolvida, aquele
plano adiado, e, de brinde, um constrangimento de 2009 que ela guarda no arquivo morto
só para essas ocasiões.
Eu já tentei de tudo. Chá, respiração, aquele áudio de chuva que promete relaxamento
profundo e entrega goteira. Nada resolve, porque nada disso ataca a causa. A causa é que
eu passo o dia inteiro ocupado demais para sentir qualquer coisa, e sentimento não expira,
ele acumula. O que eu empurro para depois às três da tarde volta cobrando juros às duas
da manhã. A insônia, no fundo, é a caixa de entrada emocional que eu me recuso a abrir de
dia.
E desconfio que não sou só eu. Desconfio que exista uma multidão silenciosa acordada
nesse exato horário, cada um na sua cama, todos administrando seus canis imaginários e
suas pautas noturnas, todos se achando os únicos. A cultura da produtividade nos ensinou
a preencher cada minuto do dia, e a conta chega de noite, quando o corpo finalmente para
e a mente, sem tarefa para executar, resolve executar a gente.
Não tenho solução mágica para oferecer, porque se tivesse eu estaria dormindo em vez de
escrever esta coluna, que aliás nasceu, adivinhe, às duas da manhã. O que eu tenho é uma
trégua recém-negociada: em vez de brigar com a insônia, eu comecei a escutar o que ela
quer dizer. Às vezes ela só quer entregar um recado que o dia não deixou. Anoto o recado,
agradeço, e volto para a cama. Nem sempre funciona. Mas funciona mais que ovelha. E
empata com cachorro.
@enricopierroofc

as reflexões de enrico

Emilly

10/08/2026

Título: No final das contas, tudo fica bem


 Ainda aqui


 A vida muda o tempo todo. As dores que hoje parecem definitivas também
passam, e é justamente essa capacidade de seguir em frente que transforma quem somos


Isso não é uma frase motivacional vazia. É uma observação. É uma experiência de quem já
esteve num buraco escuro e saiu do outro lado.
Toda crise que você acha que vai ser o fim, passa. Todo amor que você pensa que nunca
vai superar, você supera. Toda insegurança que te paralisa, um dia você olha para trás e
não consegue nem lembrar por que aquilo parecia tão importante.
Tem anos que eu carrego coisas acreditando que elas iam me destruir. E você sabe o que
aconteceu? Eu virei mais forte. Ou mais sábio. Ou mais cansado mesmo. Mas virei algo
diferente. E as coisas que eu achava que não ia conseguir ultrapassar, foram ficando
pequenas no espelho retrovisor.
Tem um padrão na vida. Tudo muda. Nada fica igual. As pessoas que você acha que vão
estar sempre do seu lado, se afastam. As pessoas que você mal conhece viram família.
Aquele trabalho dos sonhos vira um pesadelo. Aquele amor impossível se torna uma cicatriz
que cicatriza melhor do que você esperava.
Isso é até reconfortante quando você para para pensar. Significa que o sofrimento de hoje é
temporário. Significa que o que você está vivendo agora é apenas um capítulo, não é o livro
inteiro. Significa que tem mais história. Tem mais surpresas. Tem mais dias à frente.
E sabe por que eu tenho tanta certeza disso? Porque você ainda está aqui. Você pode estar
cansado, derrotado, confuso, mas você ainda está aqui. E se você ainda está aqui, é
porque tem mais. Tem mais para vir. Tem gente que precisa de você. Tem histórias que
você ainda não viveu. Tem sorrisos que ainda não aconteceram.
Então respira. Senta. Deixa passar. Porque tudo passa. Até as piores coisas. Até aquelas
que você acha que vão ser o fim. Elas passam. E você fica. E quando você fica, você
ganha.
@enricopierroofc

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