
Todo ano chega dezembro e eu fico pensando como o Natal é uma data curiosa. Dizem
que é tempo de paz, união, amor. E talvez seja. Mas, sinceramente, também é tempo de
trânsito infernal, gente estressada no mercado brigando por uva passa como se fosse ouro,
panetone que custa o olho da cara, e aquela cobrança silenciosa que paira no ar: “você está
feliz o suficiente para o Natal?” como se fosse obrigatório apresentar um laudo de alegria na
ceia.
A verdade é que eu nunca chego no Natal do jeito que imaginei em janeiro. Ninguém
chega. A gente chega meio amassado, meio cansado, meio maltratado pela vida, tentando
lembrar onde enfiou a alma no meio de tanta sobrevivência. Mas o Natal tem essa
habilidade esquisita de fazer tudo parecer um pouco menos pesado. Talvez seja a comida.
Talvez sejam as luzes. Talvez seja o oxigênio temperado com uma esperança provisória,
dessas que vencem no dia 26.
O Natal sempre me pega desprevenido. É como se, no meio do caos, alguém
apertasse um botão invisível e você, do nada, percebesse que está respirando melhor. Que
está rindo de alguma bobagem. Que está pensando em quem você ama. Que está ali,
presente, mesmo que presença nunca tenha sido exatamente seu talento.
Eu gosto do Natal porque ele não exige que a gente esteja inteiro. Ele só pede que a
gente apareça. Com o que sobrou. Com o que a vida não conseguiu arrancar. Com as
perdas, com os ganhos, com as saudades que a gente finge que superou, com os afetos
que resistiram ao ano que tentou acabar com eles. Com a fé, a gigante, a minúscula ou
aquela que a gente usa só para não enlouquecer de vez.
No fundo, o Natal é isso: um lembrete gentil (e um pouco irônico) de que ainda existe
ternura possível no mundo. Uma chance de respirar antes da próxima batalha. Uma pausa
honesta, sem filtros, sem maquiagem emocional, sem essa expectativa absurda de que
tudo esteja funcionando. É só a gente, quem importa de verdade, uma mesa que pode ser
simples ou exagerada, e uma noite que insiste em sussurrar: calma. Você chegou até aqui.
E, considerando o ano que foi, isso é quase um milagre. E tem outra coisa que sempre me
incomoda: todo mundo virou especialista em Natal. Cada um com sua tese, sua tradição,
sua crítica pronta. Qualquer opinião vira campo minado; se você gosta demais, é brega; se
não gosta, é ingrato; se comemora, está errado; se não comemora, mais errado ainda. É
curioso como a gente consegue transformar até um feriado em um tribunal.
E, no meio desse ruído, a gente esquece o básico: essa data existe por causa de um
aniversário. Ou, pelo menos, porque marcaram esse dia para isso, já que historicamente
não bate muito com nada. E, mesmo assim, independente do calendário bagunçado, do
debate histórico e da loucura comercial que engole tudo, a essência continua ali, pequena,
quase tímida. A celebração de um nascimento. De um símbolo de esperança. De alguém
que, acreditando você ou não, representa a ideia de que a luz existe, mesmo quando a vida
insiste em parecer escura. E é engraçado como a gente consegue transformar até isso em
disputa, quando talvez o Natal fosse justamente o lembrete contrário.
Então, se eu puder te desejar algo neste Natal, é isso: que você encontre um canto
de paz no meio do barulho. Que você receba um abraço que realmente faça sentido. Que
você coma algo gostoso sem lembrar do boleto de janeiro. Que você entenda, nem que seja
por alguns minutos, que existir já é um esforço descomunal, e você fez isso o ano inteiro.
Feliz Natal.
Do jeito que der. Do jeito que você conseguir. Do jeito que for real para você.
@enricopierroofc
o amor também se desfaz em silêncio
nem todo fim chega com barulho. nem toda ruptura acontece em meio a gritos,
portas batidas ou discussões sem fim. tem amor que não explode — evapora. vai
saindo de cena devagar, pelos cantos, nas pequenas ausências, nas conversas que
diminuem, nas mensagens que demoram, nos olhares que evitam o encontro.
ninguém fala em término, mas tudo termina.
é difícil perceber esse tipo de fim, porque ele não vem com data, não vem
com anúncio, não vem com drama. vem com silêncio. com a falta de vontade de
dividir o dia. com a preguiça de perguntar como o outro está. com a sensação de
estar sozinho mesmo de mãos dadas. você continua junto, mas já não tá mais ali. e
o outro também não.
o mais cruel desse tipo de separação é que não dá pra apontar o momento
exato em que tudo começou a sumir. não dá pra dizer “foi ali”. porque não foi. foi
aos poucos. foi naquele dia em que você se esforçou pra conversar e a resposta
veio fria. foi quando você contou uma dor e a pessoa não ouviu direito. foi quando
você precisou de apoio e ela escolheu dormir cedo. foi quando você começou a
sentir que estava falando com alguém que não te reconhecia mais.
e ainda assim você ficou. porque ninguém brigou. ninguém foi embora.
ninguém confessou nada. não teve traição, não teve escândalo. só teve cansaço.
rotina. desconexão. distância. tudo aquilo que a gente subestima até virar abismo.
o amor, quando se desfaz em silêncio, é mais difícil de encerrar. porque não
tem uma causa clara, não tem um culpado evidente, não tem o alívio do confronto.
tem só um acúmulo de pequenos vazios que vão comendo tudo por dentro. e,
quando você percebe, não sente mais dor. sente nada. que, às vezes, é pior.
e aí vem a dúvida. será que ainda dá pra recuperar? será que ainda tem
jeito? ou será que só restou o hábito, o medo de recomeçar, o apego ao que um dia
foi? o silêncio, nesse ponto, já virou resposta. e por mais que doa admitir, amor que
precisa ser forçado pra existir já não é amor — é insistência.
é preciso coragem pra enxergar isso. pra aceitar que acabou mesmo sem
ninguém ter dito. pra entender que a ausência de conflito não significa presença de
afeto. tem gente que fica por inércia, por conveniência, por medo. mas isso não é
amor. amor de verdade é encontro, não manutenção.
se você tá aí tentando ressuscitar o que já não pulsa, talvez precise lembrar
que amor, quando é real, não exige tanto esforço pra continuar existindo. ele pode
dar trabalho, sim, mas não precisa ser reconstruído todo dia do zero.
e quando chega nesse ponto, talvez a pergunta não seja mais “como
salvar?”, mas “por que ainda estou tentando?”.
e aí, sem ninguém gritar, sem ninguém bater porta, o fim acontece. porque o
amor, às vezes, não vai embora. ele só para de voltar.
@enricopierroofc

Enquanto você se abandona o mundo continua

Você continua tentando dar conta de tudo. Responde sorrindo, organiza a
rotina, resolve o que precisa ser resolvido, escuta o problema dos outros,
entrega o que te pedem. Por fora, parece estável. Por dentro, você não lembra
mais o que sente. Não porque não sente nada, mas porque não sobra espaço
para sentir. Está tudo ocupado. Cheio de função, cheio de pressão, cheio de
expectativa. E você foi ficando pequeno no meio disso tudo. Foi esquecendo de
si.
O problema é que ninguém percebe. E nem vai perceber. Porque você
se tornou funcional. Você aprendeu a esconder. A engolir o cansaço, a adiar o
choro, a deixar para depois o que você mesmo precisa. E o mundo, que adora
eficiência, aplaude. Quanto mais você se anula, mais dizem que você é forte,
que você é maduro, que você dá conta. Mas a verdade é que dar conta não
significa estar bem. Dar conta não significa estar inteiro. Dar conta, às vezes, é
só o que resta quando a gente já desistiu de ser cuidado.
E enquanto você se abandona, o mundo não para. Ninguém vai frear por
sua causa. Ninguém vai notar o seu limite se nem você respeita ele. O chefe
vai continuar pedindo mais. A família vai continuar esperando. As pessoas ao
redor vão seguir contando com você. Porque foi assim que você ensinou o
mundo a te ver: como alguém que está sempre disponível, mesmo quando não
aguenta mais. E se você não mudar isso, ninguém vai mudar por você.
É duro aceitar, mas é simples: ninguém vai te salvar. Se você continuar
se colocando por último, ninguém vai te puxar de volta. É você quem precisa
interromper esse ciclo. E não precisa ser com grandes decisões. Às vezes, é
só dormir mais cedo. É só parar de responder todo mundo. É só dizer “não
quero”, “não posso”, “não agora”. É só se ouvir. Porque, se continuar nesse
ritmo, você não vai durar. E aí, quando desabar, vai perceber que passou a
vida sendo tudo para todo mundo e nada para si.
Você não foi feito para sustentar o mundo. E também não precisa pedir
desculpa por querer se cuidar. É agora que você precisa se escolher. Porque
se você não voltar para si, ninguém volta por você.
@enricopierroofc
