Coluna as reflexões de enrico

O que os quatro cachorros sabem que eu não sei.

Emilly

25/10/2026

O que os quatro cachorros sabem que eu não sei.

 Lições simples

 Talvez os quatro cachorros não saibam explicar o que é viver bem, mas
parecem entender uma coisa que eu ainda estou aprendendo: o passado não
precisa entrar pela porta junto com a gente.


Todo santo dia, na mesma hora, os quatro se organizam na porta para esperar a
comida. Não adianta eu estar atrasado, com a cabeça em outro lugar, discutindo
comigo mesmo algum problema que parece do tamanho do mundo. Eles estão ali,
sentados, olhando para a porta com uma expectativa tão inteira que chega a doer
de tão simples. Nenhum deles carrega a discussão de ontem. Nenhum deles
antecipa a de amanhã. Existe só a fome de agora, a porta de agora, a alegria de
agora.
Eu invejo essa economia emocional deles, sinceramente. Eu levo a mesma mágoa
por semanas, remoendo ela em ângulos diferentes, cada um mais desgastante que
o outro. Eles brigam, rosnam feio um para o outro por causa de um brinquedo, e
cinco minutos depois estão deitados encostados, como se o rosnado tivesse
acontecido numa vida anterior. Não é que eles esqueçam por burrice. É que eles
não carregam o passado como peso, só como aprendizado rápido, e seguem.
Tem uma cena que se repete muito aqui em casa: eu chego cansado, de mau
humor, arrastando um dia ruim pela casa inteira, e algum deles vem esfregar a
cabeça na minha perna, sem nenhum motivo lógico, sem retribuição esperada, só
porque sim. Não é estratégia, não é cálculo. É presença pura, o tipo de coisa que
eu, com toda a minha capacidade de escrever sobre sentimento, ainda erro na hora
de oferecer de graça.
Confesso que já tentei imitar. Já tentei chegar em casa e decidir, na marra, que
aquele dia ruim ia ficar do lado de fora do portão, do jeito que eles parecem fazer
com tanta naturalidade. Funciona umas vezes. Na maioria, eu carrego o dia inteiro
para dentro de casa, converso com ele até tarde, e só de madrugada, olhando para
algum deles roncando tranquilo aos meus pés, é que eu lembro que existe outro
jeito de viver um dia difícil.
Não sei se um dia eu vou aprender de vez o que eles sabem sem esforço nenhum.
Mas toda vez que um deles esquece uma briga em cinco minutos, ou espera a
comida sem nenhuma ansiedade sobre o futuro, eu anoto mentalmente que ali,
naquele focinho descansando no meu colo, existe uma aula que eu ainda não
terminei de fazer.
@enricopierroofc

A régua emprestada.

Emilly

22/09/2026

A régua emprestada.

Medida alheia

A gente se compara com todo mundo, usando uma régua que ninguém
pediu, e depois reclama que a própria vida parece curta.

 

 

Outro dia eu me peguei fazendo uma coisa ridícula. Eu estava no celular, tarde da
noite, comparando meus números de seguidores com os de um colunista quinze
anos mais novo que eu. Quinze anos. O rapaz provavelmente estava aprendendo a
andar quando eu já pagava boleto, e mesmo assim lá estava eu, quarentão,
contando os seguidores dele como quem confere o troco do padeiro, desconfiado de
que a vida tinha me passado a perna em algum caixa.
Quando eu me dei conta do que estava fazendo, ri sozinho no escuro. Porque não
era sobre o rapaz, coitado, que nem sabe que existe um senhor no interior o
auditando de madrugada. Era sobre a régua. Essa régua invisível que eu carrego
desde sempre e que vive medindo a minha vida contra a vida dos outros, sem
nunca me perguntar se eu autorizo a medição.
E aí eu comecei a pensar de onde veio essa régua. Não fui eu que fabriquei, disso
eu tenho certeza, porque se fosse minha ela mediria coisas que eu valorizo de
verdade: quantas tardes de sofá com os cachorros, quantos jantares bons, quantos
textos que fizeram alguém chorar de reconhecimento. Mas não. A régua que eu
carrego mede seguidor, mede curtida, mede cargo, mede a idade em que cada
conquista deveria ter acontecido. Ela foi montada por comentário de parente, por
capa de revista, por algoritmo. É uma régua de origem coletiva, e eu nem lembro de
ter assinado o recebimento.
O mais engraçado, se é que dá pra rir, é que todo mundo à minha volta carrega uma
igual. O colunista jovem que eu auditava provavelmente se compara com alguém
maior que ele, que por sua vez se compara com outro maior ainda, numa escadaria
infinita onde ninguém chega ao topo porque o topo é uma mentira de perspectiva.
Estamos todos medindo a própria vida com a fita métrica do vizinho e estranhando
que o resultado nunca bate.
Não vou mentir dizendo que joguei a régua fora, porque isso seria a versão
instagramável da história, e aqui a gente combinou de ser honesto. A régua
continua comigo. Mas agora, pelo menos, quando ela aparece medindo o que não
devia, eu consigo perguntar: de quem é essa marca? Quem decidiu que essa é a
medida do suficiente? Na maioria das vezes a resposta é: não fui eu. E só essa
pergunta já encurta a régua uns bons centímetros.
@enricopierroofc

Aprender a ouvir

Emilly

18/08/2026

 O silêncio que a chácara ensina.



Aprender a ouvir

Às vezes, o silêncio que antes parecia estranho ou ameaçador só está
tentando nos ensinar que nem todo vazio precisa ser preenchido.

Teve uma manhã, faz pouco tempo, em que eu acordei antes do despertador e
fiquei parado na cama só escutando. Não tinha carro passando, não tinha buzina,
não tinha aquela trilha sonora urbana que a gente aprende a não ouvir mais de tanto
ouvir. Tinha vento nas árvores, um cachorro se espreguiçando lá fora, e depois
nada. Um nada tão completo que por um segundo eu estranhei, quase levantei pra
ver se tinha alguma coisa errada, porque silêncio desse tamanho, hoje em dia, soa
quase como defeito.
Eu passei anos treinando o ouvido pro contrário. Morei em lugar em que silêncio de
madrugada geralmente significava alguma coisa acontecendo, não a ausência de
coisa nenhuma. O corpo aprende essas associações sem pedir licença, e o meu
aprendeu que quieto é sinônimo de alerta. Cheguei na chácara carregando esse
reflexo, e nas primeiras semanas eu ligava a televisão só de fundo, ou colocava um
podcast que eu nem prestava atenção, só pra preencher um vazio que na verdade
não pedia preenchimento nenhum, pedia só companhia da minha própria presença.
Foi levando tempo, mais do que eu esperava, pra eu entender que aquele silêncio
não estava vazio, estava cheio de um jeito diferente do que eu conhecia. Cheio de
pássaro, de vento, de cachorro respirando, de uma paz que não precisa de legenda
pra ser boa. O problema nunca foi o silêncio em si, foi eu não saber ficar dentro dele
sem tentar decodificar alguma ameaça escondida ali.
Hoje eu ainda pego a televisão ligada às vezes, não vou fingir que virei monge, mas
aprendi a distinguir quando é companhia de verdade e quando é fuga disfarçada de
hábito. Tem manhã em que eu desligo tudo de propósito, só pra sentir esse silêncio
grande de novo, o mesmo que antes me deixava desconfiado. Hoje ele me deixa em
paz, e essa mudança, pequena e boba na aparência, foi uma das coisas mais
valiosas que a chácara me ensinou sem eu pedir aula.
Acho que a gente vive tão cercado de som que esquece que silêncio também é um
idioma, e que ele só assusta quem nunca teve tempo de aprender a falar nele. Eu
ainda estou aprendendo, devagar, nas manhãs que sobram. Mas já sei reconhecer
quando o silêncio está me dizendo alguma coisa boa, e isso, garanto, é bem
diferente de quando ele estava só me avisando de perigo.
@enricopierroofc

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